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David Vogel
O crítico da «responsabilidade
social»
Review com entrevista do livro The
Market for Virtue: the Potential and Limits of CSR
Vogel entrevistado
por Jorge Nascimento Rodrigues,
editor de Gurusonline.tv, Julho 2005
Vogel na Web | Compra de Livro na Amazon.com
O
marketing da 'virtude' não rende o que os seus
defensores apregoam. A chamada responsabilidade social
é irrelevante para a performance económica
da maioria das empresas cotadas. "Nenhum estudo
provou satisfatoriamente que haja uma relação
entre a CSR (acrónimo para corporate social responsability)
e a rentabilidade dessas empresas. Por outro lado, o
impacto global da CSR nas práticas de negócios
é muito limitado e desigual", afirma, a
contracorrente, David Vogel, especialista no tema, que
lançou, este ano, o livro The Market for Virtue:
the Potential and Limits of CSR, publicado pela
Brookings, nos Estados Unidos. "Interessa a uma
nicho de mercado. Não é relevante para
todas as firmas, mas para dois tipos de empresas - produtos
de luxo ou de especialidade que usam a 'virtude' como
adereço de marketing, ou grandes marcas como
resposta defensiva aos ataques dos activistas dos movimentos
e organizações não governamentais",
sublinha. A etiqueta de CSR serve para atrair consumidores,
amaciar investidores e accionistas e cativar como local
de trabalho para potenciais empregados, resume este
especialista.
O paradoxo é que empresas que apregoavam numas
áreas a sua 'virtude' e 'responsabilidade social',
acabavam com a outra mão por manchar os bons
costumes e boas práticas e os seus CEO foram
demitidos e, em alguns casos, presos. Vogel dá
dois exemplos, ainda que distintos: o da Enron muito
elogiada, no seu período áureo, pelas
suas iniciativas ambientais; e o caso mais recente da
Shell, uma líder na CSR, em que "os seus
executivos enganaram os investidores entre Dezembro
de 1999 e Janeiro de 2004" inflaccionando "chocantemente"
(nas palavras da acção do Tribunal de
Nova Jersey) nas suas contas as reservas de petróleo
e de gás.
Vogel, que é professor de ética empresarial
na Haas School of Business da Universidade de Berkeley,
na Califórnia, analisou, durante um ano, o movimento
actual da CSR nos Estados Unidos e na Europa, e traçou
as suas raízes históricas mais remotas
no take off da industrialização através
da filantropia dos capitães de indústria
e depois nos anos 1960 a 1990, como resposta a acidentes
(Bhopal em 1984, Exxon Valdez em 1989) ou a problemas
políticos (como o do apartheid na África
do Sul).
Mas a buzzword ganharia expressão mediática
e globalizar-se-ia desde os anos 1990. O frenesim recente
deriva da criação em 1991 do World Business
Council for Sustainable Development por 175 multinacionais
e da Cimeira do Rio em 1992. O número de multinacionais
que abraçaram o "UN Global Compact"
- um conjunto de 10 códigos voluntários
de conduta nos negócios em termos de ambiente,
direitos humanos, direitos laborais e anti-corrupção
- subiu de 38, em 2000, para 1500 em 2004. O país
mais sensível a esta temática é
hoje o Reino Unido, que chegou a ter um ministro para
o tema, entre 2000 e 2002. A União Europeia em
2001 publicaria um "Green Paper" sobre o tema.
Vogel concluiu, no estudo, que o uso desta ferramenta
de marketing é muito orientada para "efeitos
nos media" e como arma defensiva para "protecção
da reputação por parte de marcas com grande
visibilidade" que são pressionadas por movimentos
e organizações não governamentais
nas mais diversas áreas (ambiental, direitos
humanos nos países de outsourcing, práticas
de corrupção de Governos e Administração
Pública, etc.).
A buzzword criou a sensação idealista
de que no mundo dos negócios não há
opções antagónicas que, por vezes,
colocam em choque os benefícios para a sociedade
e os proveitos para os accionistas. Nem sempre se gera
uma situação de "win-win", como
dizem os americanos. E, em muitos casos, a CSR implica
a assunção da "internalização"
de custos ligados às famosas "externalidades"
negativas - palavrão do economês para os
custos que a sociedade paga, em virtude da omissão
por parte dos seus causadores - que redundam em investimentos
ou se repercutem em preços mais altos aos consumidores,
situações que merecem ponderação.
"O maior constrangimento à procura da virtude
é o próprio mercado", diz, com humor,
Vogel. Já em 1973, Neil Chamberlain, em The Limits
of Corporate Responsability, acusava "a ilusão"
por parte dos teóricos da responsabilidade empresarial
por exigirem demais do que hoje se poderá chamar
de "papel público do sector privado".
Fruto do "boom" desta buzzword houve, sem
dúvida, uma nova área de negócio
que conseguiu emergir - o do cluster da própria
responsabilidade social, com novos mercados em certos
produtos baseados no comércio justo (contudo,
no café, é apenas de 1% do mercado), o
disparo nos fundos de investimento 'social' (actualmente
1000, que perfazem apenas 2% dos activos dos fundos
nos EUA, mas que já movimentam 2 biliões
nos EUA e 10 mil milhões na Europa), a multiplicação
de associações e firmas de consultoria
e avaliação na área, e o aumento
do papel das próprias ONG.
Entrevista
A CSR é, de facto, praticamente irrelevante
como diz? Tem dados empíricos que suportem essa
afirmação grave?
A minha conclusão é baseada em diversos
factores. Primeiro, a performance financeira dos próprios
fundos de investimento 'sociais' não é
melhor do que dos outros. Segundo, não há
estudo nenhum que prove satisfatoriamente uma correlação
positiva entre rentabilidade e CSR. Em terceiro lugar,
podemos listar empresas com forte reputação
na CSR que estiveram bem, e outras com fraca reputação
nessa matéria que, também, tiveram boa
performance. Apesar de haver evidência de que
a CSR pode render, isso não significa que necessariamente
renda, na realidade, para todas ou até para a
maioria das firmas. Poucas empresas exibem níveis
de CSR numa análise de longo prazo.
Mas se não há essa correlação,
para que é as empresas cotadas usam a CSR?
Por uma série de razões - umas positivas,
outras negativas. Do lado positivo, diria que é
uma boa ferramenta de marketing para potenciar a sua
reputação, atrair consumidores, e vender-se
como óptimo local para trabalhar. No campo das
negativas, há que salientar ser uma estratégia
para evitar ou responder à crítica da
opinião pública sobre a performance social
dessas empresas. Nalguns, poucos casos, a CSR serviu
inclusive para criar novos mercados.
Em suma, em que sentido a CSR é útil?
Claramente é uma ferramenta útil no caso
das marcas com alta visibilidade, ajudando a potenciar
ou proteger a reputação delas.
«Claramente é uma ferramenta
útil no caso das marcas com alta visibilidade,
ajudando a potenciar ou proteger a reputação
delas.»
Mas, refere, ainda, que há um mercado de
nicho para a virtude. Que nichos?
O que eu quero dizer com isso é que a CSR não
é relevante para todo o tipo de firmas, mas sobretudo
para certos casos. Estes casos enquadram-se em duas
categorias: firmas que decidiram usar a CSR como fonte
de vantagem competitiva, sobretudo nos produtos de luxo
e de especialidade dirigidos a mercados pequenos; e
empresas que foram atacadas ou são seriamente
vigiadas por activistas.
Quer dizer que essa estratégia de marketing
é particularmente sensível para empresas
que se julguem vulneráveis à opinião
pública?
A CSR é muito 'orquestrada' pelos media.
Mas, em geral, quais são os limites à
responsabilidade social, de que fala no seu livro?
O maior constrangimento à procura da virtude
é o próprio mercado (risos). Há
limites, sobretudo quando um comportamento responsável
faz disparar os custos e os consumidores poderão
não estar dispostos a pagar essa factura. Devido
há limitada capacidade do mercado da virtude
para internalizar externalidades, as falhas de mercado
continuam. No caso específico da área
ambiental, há evidência de que, em certas
circunstâncias, a CSR rende. A principal conclusão
do meu livro é que a virtude que podemos esperar
das empresas é consideravelmente mais modesta
do que alegam os artigos actuais sobre o tema. Em suma,
o case study da CSR tem pouca fundamentação
empírica.
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