Seán Meehan,
director do MBA do IMD, arrasa o mito da diferenciação
a todo o custo
Deixe-se de sofisticações
artificiais
Jorge
Nascimento Rodrigues,
editor de Gurusonline.tv, Novembro de 2004
Versão reduzida
publicada na revista portuguesa Executive Digest, edição
de Outubro de 2004,
na secção "Buzzword"
Ilustração
de Paulo Buchinho
Entrevista
original em inglês
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o Livro Simply Better
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tema na Web
Artigo
de resumo disponível gratuitamente na Business
Strategy Review
(6 Rules for become simply better"
5 Mitos a abater
O mito da tal "proposição única
de valor", da diferenciação a todo
o custo e da segmentação levada ao exagero,
regra geral, não funciona. Já era tempo
de alguém vir dizer alto e bom som aquilo que
muita gente pensava baixinho. O que tem sucesso é
fazer decididamente MELHOR do que os seus concorrentes.
Esta é a nova regra de ouro emergente: seja simplesmente
melhor ("simply better", em inglês).
Como um tiro no porta-aviões, a "buzzword"
dos anos 1990 sob fogo é a muito citada "diferenciação
ou morte!" ("Differentiate or die!",
que foi título de livro).
O responsável mor por estes disparos é
Seán Meehan, director do MBA da Escola de Negócios
IMD suíça, que com o seu colega Patrick
Barwise, professor de marketing da London Business School,
acaba de publicar "Simply Better", na Harvard
Business School Press.
Seja realista!
A mensagem principal destes dois investigadores é
aparentemente trivial: "O nosso ponto de vista
vai contra o mito do pensamento convencional acerca
do posicionamento competitivo e da diferenciação.
A segmentação e a diferenciação
exageradas são muitas vezes uma distracção
do essencial. O nosso objectivo é que os executivos
sejam realistas sobre o que é possível.
Originalidade e publicidade fabulosas é óptimo
- se a sua empresa já lidera o mercado na prestação
de benefícios genéricos para os clientes.
Mudar as regras do jogo pode ser altamente lucrativo,
mas acontece raramente", explica-nos o professor
do IMD.
E a conclusão não se faz esperar: "Para
a maioria dos negócios na generalidade dos mercados,
a primeira prioridade é tornar-se simplesmente
melhor do que os seus concorrentes, fornecendo aos consumidores
ou clientes o que efectivamente mais conta para eles".
Os dois especialistas de marketing são abertamente
adeptos de uma estratégia "utilitarista"
e de "excelência funcional" na abordagem
dos clientes. Chamam ao livro um "Manifesto pelo
regresso ao básico".
A constatação que fazem, a partir de
vários casos em sectores muito distintos, alimenta
o que poderemos baptizar de "lei da rotina funcional".
Ou seja, a maioria de nós - enquanto clientes
ou consumidores - não compra uma marca porque
esta oferece um determinado "detalhe único"
muito propagandeado. Não acredite nessa conversa
fiada, dizem Seán e Patrick.
"Compramos quando encontramos a melhor combinação
de benefícios básicos. Ou, se não
conseguimos ver diferenças materiais entre a
oferta - decidimos ou pelo mais barato ou pela primeira
marca de que nos lembramos", frisa Seán.
Muitas das decisões de compra orientam-se para
uma dada marca, não porque ofereça algo
de original e único, mas, simplesmente, porque
se revelou "um fornecedor confiável".
Gera-se, assim, uma rotina. Em suma, o livro argumenta
desenvolvidamente que há uma primazia das categorias
de benefícios básicos sobre as marcas
individuais.
Os dois especialistas de marketing
são abertamente adeptos de uma estratégia
"utilitarista" e de "excelência
funcional" na abordagem dos clientes. Chamam ao
livro um "Manifesto pelo regresso ao básico".
Regras de ouro
Somos, assim, confrontados com um paradoxo: é
possível uma empresa salientar-se do pelotão
de concorrentes sem necessariamente oferecer uma "proposta
única de valor". A frase mágica de
Seán é outra: seja simplesmente o melhor
a oferecer aquilo que é básico para a
clientela a que se dirige.
Seán prefere a palavra-chave "o melhor"
("the best") à outra mais querida pelos
gurus da diferenciação - "único"
("uniqueness").
Por isso, os dois autores de "Simply Better"
apaixonaram-se por exemplos como a Toyota, "keiretsu"
japonês no sector automóvel, a Orange nos
telemóveis em Inglaterra, e a Cemex, a multinacional
mexicana líder numa "commodity", o
cimento. Estas empresas - bem como a Tesco, na distribuição
- conseguem a proeza de outro paradoxo: inovar na base
da oferta básica, alargando "o fornecimento
de mais características essenciais de senso comum",
como explicam os autores. Estamos longe da redefinição
radical das categorias de benefícios, de que
fala o revolucionário da inovação
Gary Hamel. Os casos que ele aponta, dizem Seán
e Patrick, são excepcionais, são raros,
por isso não estão, em termos realistas,
ao alcance da maioria.
Os dois autores escandalizam, de seguida, os "revolucionários"
do marketing com duas regras de ouro favoritas: Primeira,
pense simplicidade, não sofisticação;
Segunda, pense dentro da caixa quando quer traçar
a sua estratégia, e não fora (o outro
mito célebre do "out-of-the-box").
Mas admitem duas adendas.
A primeira: se a sua oferta já é realmente
a melhor, então faça-se ouvir com arte,
seja o melhor também a comunicar e na publicidade
e relações públicas. E neste terreno
recorra ao "pensamento fora da caixa". Deixe
os criativos voarem para que a sua marca consiga convencer
os cépticos e os não-clientes de todo.
A regra de ouro, aqui, é esta: o seu produto
não necessita de ser distintivo, mas a sua publicidade
tem de o ser. A arte é tornar-se notado sem gritar
e sem vigarices, fazê-lo naturalmente, já
dizia o "papa" da publicidade, Leo Burnett.
A segunda: em muitos sectores criativos e de entretenimento
- cinema, música, livros, habitat, moda - cada
produto deve ser único, especial. Nestes casos,
esse é o benefício básico. Mas,
atenção, não generalize a partir
destas excepções.
ENTREVISTA
«Think inside the Box»
Michael Porter ensinou-nos desde os anos 1980 que
o que rende é a diferenciação na
proposta de valor ao cliente. Essa receita é
para deitar fora?
Seán Meehan - O perigo não vem
do conceito em si. Mas da excitação dos
gestores orientados para o produto em quererem sempre
acrescentar mais esta ou aquela característica
perfeitamente artificial, alegando que diferencia da
concorrência. O problema é que os clientes,
regra geral, não ligam mesmo nada a isso - são
acrescentos perfeitamente irrelevantes.
Então, o que é que pode fidelizar
os clientes?
S.M. - A satisfação clara das
suas expectativas básicas a respeito de cada
produto ou serviço. O que o cliente quer é
obter o que se designa tecnicamente por uma "categoria
de benefícios genéricos" relacionados
com a funcionalidade do produto ou do serviço.
Isso não é demasiado simplista?
S.M. - Para lhe responder, o melhor resumo do
meu conselho é indiscutivelmente o motto da Toyota:
exclua os maneirismos, aposte no essencial. Como dizemos
no próprio título do livro: seja simplesmente
melhor. O melhor a fornecer os tais benefícios
genéricos.
«A Orange, nos telemóveis,
foi pioneira sistematicamente em inovações
específicas de senso comum, muito úteis
e de grande transparência para os clientes. Ampliaram
o que era básico, e deste modo criaram novos
standardes. Acabaram por impor novas regras no jogo.»
Mas se o utilitarismo é suficiente, e se
acha - como dizem no livro - que mudar as regras do
jogo é um caso muito raro, como é que
há inovação?
S.M. - A lição da prática
é a seguinte: inova-se, focalizando nos tais
benefícios genéricos, pensando na forma
de os melhorar cada vez mais. Neste sentido, a inovação
é o sopro de vida para as empresas que estudámos.
Veja só um caso: a Orange, nos telemóveis,
foi pioneira sistematicamente em inovações
específicas de senso comum, muito úteis
e de grande transparência para os clientes - por
exemplo, na facturação ao segundo ou na
tarifa plana para chamadas internacionais. Ampliaram
o que era básico, e deste modo criaram novos
standardes. Acabaram por impor novas regras no jogo.
O leitor ficará, também, um pouco
escandalizado ao ler no vosso livro que "pensar
fora da caixa" pode ser uma parvoíce...
S.M. - O "out-of-the-box", em geral,
é uma desculpa para um pensamento um pouco desleixado.
É claro que o "salta quântico"
e o "pensamento revolucionário" são
óptimos - desde que na direcção
certa. O problema é que são raros. Daí
que a minha regra favorita seja outra: pense dentro
da caixa. Ou seja veja quais são as coisas básicas
no seu negócio e seja o melhor a fazê-las.
E ponto final.
| 5 mitos a abater |
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1. Diferenciação ou morte!
Antídoto de Seán: diferencie pela via
utilitária, pelas funcionalidades básicas
que os clientes desejam. Não se distraia com
truques e maneirismos. Peça feedback constante
sobretudo sobre o que desagrada, sobre as experiências
desastrosas.
2. Sofisticação na oferta
Antídoto de Seán: opte sempre pela simplicidade,
focalize-se no básico, deixe-se de manobras de
diversão. O cliente não é parvo,
ou só é parvo uma vez.
3. Seja pioneiro
Antídoto de Seán: seja o primeiro a fazer
bem, não necessariamente o pioneiro a inovar
ou a chegar ao mercado; os pioneiros falham entre 90
e 99%.
4. "Pense fora da caixa"
Antídoto de Seán: Faça-o só
em matéria de criatividade; em tudo o resto pense
dentro da caixa, deixe-se de "invencionices".
5. Livre-se da mentalidade de "commodity"
Antídoto de Seán: Não necessariamente.
Há grandes oportunidades nos mercados de "commodities",
se não encarar os seus clientes como "segmentos"
abstractos.
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