Os media de carne e osso
Ira Matathia, revela o "prosumidor"
inventado por Alvin Toffler
Por Catarina
Nunes, jornalista do semanário português
Expresso e Jorge
Nascimento Rodrigues, editor de Gurusonline.tv,
Janeiro de 2005
Referências na Web: Sítio
da Euro RSCG
Para mais
informação sobre o "Prosumer Pulse
2004" contactar por e-mail
Entrevista
original em inglês publicada em Gurusonline.tv
Alvin Toffler chamou-lhe na famosa "Terceira Vaga"
um palavrão inglês de difícil tradução
para o português: "prosumer". Ira Matathia,
um especialista da agência Euro RSCG e um conhecido
guru do marketing com 30 anos de carreira, repescou
o conceito futurista e com base num inquérito
de campo realizado em 2004 traçou o perfil dessa
multidão de 25 a 30% de vanguardistas que, com
um ano a um ano e meio de avanço sobre a massa,
antecipam as tendências. Por isso, ignorá-los,
na estratégia, é um erro crasso.
Em suma, bem informados, adeptos das novas tecnologias,
auto-determinados, cépticos, com opinião
formada e uma enorme capacidade de influenciar quem
os rodeia - os prosumidores são a nova referência
para as marcas. Ira Matathia, actualmente "managing
director" da Euro RSCG Worldwide, classifica-os
mesmo como verdadeiros meios de comunicação
humanos, uma espécie de media em carne e osso.
"Como são extremamente comunicativos, os
prosumidores apanham o que as outras pessoas estão
a pensar e reflectem isso nas suas próprias experiências.
O interesse pela inovação leva-os a experimentar
as novidades e como são muito comunicativos acabam
por falar à sua rede de contactos sobre essas
experiências", explica o guru. Aliás,
a capacidade de passar a palavra é a característica
do principal sub-segmento dos prosumidores - os "abelhas".
Os "alfas" descobrem e os "abelhas"
actuam como megafone - na música, o caso do visionário
da banda NIN e do "aproveitador" Marilyn Manson
é de antologia, diz Matathia (ver
entrevista). Por enquanto, o estudo intitulado "Prosumer
Pulse" (um tomar o pulso do prosumidor) abrangeu
apenas os Estados Unidos, Reino Unido, China, Índia,
França e Alemanha.
Um pró-activo que vale 30%
Certo é que estes novos consumidores já
representam entre 25 a 30% da população,
virtualmente em todos os países e em todas as
categorias de mercado. As excepções, segundo
o responsável, são ditadas por normas
culturais. "No Japão, por exemplo, onde
a cultura tende a ter mais a ver com a conformidade,
tem menos a ver com a individualidade", sustenta.
O conceito de prosumidor, introduzido por Toffler,
pretendia fazer uma sobreposição entre
os produtores e os consumidores, de bens ou serviços.
Ou seja, a capacidade do consumidor fornecer informações
sobre o que quer e como quer. No limite, se as marcas
não seguirem as indicações destes
consumidores correm o risco de criar produtos ou serviços
que ninguém quer.
O prosumidor partilha com o "early-adopter"
(termo técnico anglo-saxónico para o consumidor
que se caracteriza por ser o primeiro a aderir à
novidade) o mesmo tipo de comportamento, mas distingue-se
pelas suas atitudes interventoras em relação
às marcas, empresas, informação
e os meios de comunicação. Enquanto os
"early-adopters" acompanham a "onda"
do mercado com uma atitude passiva, os prosumidores
respondem de forma activa ao que lhe és oferecido
e antecipam o que vão querer a seguir - são
pró-activos, como agora é moda dizer.
São o tipo de consumidor que marca presença,
por exemplo, nos "call-centers" de gestão
de reclamações ou de sugestões.
A combinação da pró-actividade
com a conectividade torna-os um indicador (agarram e
amplificam o espírito do momento), com características
formativas (influenciam as empresas e os outros consumidores).
Um alarme antecipado
A autodeterminação e o autocontrole não
os torna imunes ao consumismo. Ira Matathia coloca-os,
mesmo, na vanguarda do consumo, conduzidos pelas potencialidades
da Internet (que lhes dá informação
e a possibilidade de comunicar), pela fragmentação
dos meios de comunicação (que torna mais
poderosa a sua comunicação boca-a-boca),
e pela globalização pessoal (que leva
a sua força a todo o mundo).
Comparados com o consumidor comum, os prosumidores
compreendem melhor as estratégias de marketing
e, por isso, são mais exigentes. Procuram activamente
informações e opiniões e têm
consciência da sua importância para os retalhistas
e para os parceiros das marcas. Um ano a um ano e meio
é o tempo entre a escolha de um prosumidor se
tornar uma tendência de massas. Ira Matathia salienta,
porém, que em algumas categorias, como por exemplo
a cultura pop, as tendências são mais transitórias
e alteram-se a uma velocidade muito superior.
No final, qual é a importância dos prosumidores?
Toda. Funcionam como uma espécie de alarme antecipado
de tudo aquilo que vai estar "a dar" no futuro.
Pessoas que as empresas devem encontrar e não
perder de vista.
ENTREVISTA
A "abelha" Manson e o "alfa"
Reznor
Em suma, o que é o prosumidor?
É um personagem que reflecte e molda mercados.
É um sistema de alarme. O que fazem e pensam
hoje, é o que o grosso dos consumidores farão
e pensarão amanhã. São uma espécie
de media humano. E a nossa investigação
indica que os há em todas as categorias de produtos
- representam uma marca de paixão, e sendo assim
o seu pro-activismo e envolvimento numa dada categoria
de produtos torna-os relevantes, como no caso dos "maluquinhos
da tecnologia", ou dos apaixonados pela moda, ou
dos loucos por boa comida ou por bólides, etc.
É uma postura - os que revelam esses traços,
impregnarão com eles as interacções
com os produtos e as marcas.
Haverá alguma figura pública que apresente
esse perfil?
Há um caso que apresentámos no livro "Buzz",
e que retirámos da música pop, e que é
muito evidente sobre a distinção entre
o que chamamos de prosumidores "alfa" e de
"abelhas". Considere os casos de Trent Reznor
(também conhecido como TR ou T.Rez ou El Rezzo),
fundador da banda Nine Inch Nails (NIN), e um tal Brian
Warner, do Ohio, um rapazinho de uma escola católica
que em adolescente tinha tido um problema muito sério
de acne e que poucas amizades tinha cultivado. Provavelmente,
os leitores conhecerão este Brian pelo seu nome
de guerra - Marilyn Manson! Reznor era um "alfa"
- foi um visionário na música e apoiou
o emergente Brian/Manson em 1993, com a chancela da
sua editora musical Nothing/Interscope Records. Manson,
uma verdadeira "abelha", aproveitou a alavanca
e através de uma série de controvérsias
conseguiu manter-se nas luzes da ribalta. Na sua performance
na MTV apresentou-se como uma figura andrógina,
bizarra. Era uma ideia original? De modo nenhum. Mas,
naquela época, a androginia era explorada pela
cultura marginal.
| 12 Tendências do "prosumer" |
|---|
1ª Criam o seu estilo de vida próprio
recolhem dicas de várias fontes, mas não
seguem gurus. Preferem o seu próprio ritmo em
detrimento das opções das maiorias.
2ª Não são hipócritas puritanos
e a metrosexualidade é uma atitude típica
dos homens pró-consumidores. Não se auto-limitam.
Não se deixam prender por estereótipos.
3ª Fazem escolhas inteligentes
porque estão bem informados e sabem o
que existe disponível. Têm em atenção
os preços baixos, mas estão disponíveis
para pagar um preço elevado, desde que tenha
incluído marca e serviço.
4ª Abraçam a mudança e a inovação
mas não as aceitam de forma incondicional.
Querem ser os primeiros a aderir às novidades
que acrescentam valor. Querem ser os primeiros em novos
lugares, ideias ou produtos.
5ª Vivem 'aqui e agora'
porque sabem que já estão muito
à frente. Gerem as pressões e os prazeres
sem pressa.
6ª Estão conectados e interagem
sem limitações de espaço
e de tempo. E ainda controlam quando e a quem estão
ligados.
7ª Valorizam-se a si próprios
e quando as coisas se complicam, abrandam o ritmo
e mimam-se a si próprios. Dificilmente sofrem
de fraca auto-estima.
8ª Escolhem o design
seja num objecto, na selecção de
ingredientes para uma refeição, na roupa
que usam. Tudo o que faz parte das suas vidas tem uma
característica comum: a ponderação.
9ª Preocupam-se com a saúde
especialmente quando a sua ou a das pessoas que
lhes são próximas está ameaçada.
Questionam os médicos e pedem segundos e até
terceiros diagnósticos.
10ª Valorizam o que funciona
seja de forma lenta ou rápida. Pensam
a longo prazo, mas isso não quer dizer que se
comprometam só pelo compromisso.
11ª São o barómetro das marcas
porque conhecem os seus aspectos positivos e
negativos. Não são escravos das marcas
nem pró-"no logo" (anti-marcas, na
expressão da activista Naomi Klein). Simplesmente
sabem quais e quando são as que acrescentam valor.
12ª Querem aprender
a arranjar canalizações ou a fazer
comida étnica (como agora se diz). Tudo o que
lhes dê a sensação de controlar
as situações.
Fonte: Prosumer Pulse 2004: A Global Study - Anticipating consumer brand, Euro RSCG Worldwide |
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