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As Pegadas da Língua
Uday Karmarkar, especialista
em geo-economia dos serviços, entrevistado por
Jorge Nascimento
Rodrigues, editor de Gurusonline.tv, Dezembro de
2004
Ilustração
de Paulo Buchinho
Contacto de Uday Karmakar | Sítio na Web de Uday Sobre Uday na Universidade da Califórnia | Para saber mais | 5 Dicas de Uday
A língua e a cultura são hoje um veículo
fundamental para o sucesso de estratégias internacionais
de "outsourcing" (subcontratação
em fornecedores no estrangeiro) e de "insourcing"
(atracção de subcontratação
por parte de clientes estrangeiros) na área dos
serviços às empresas. Grande parte da
força destas duas "buzzwords" da moda
nos sectores de serviços está na adequada
exploração da proficiência na língua
materna ou outras línguas globais e numa inteligente
valorização internacional da cultura e
da rede mundial criada através dos séculos.
"Em termos gerais, a geografia dos serviços
é hoje linguística e cultural. As barreiras
de língua são mais relevantes nos serviços
do que os oceanos, as montanhas ou as fronteiras políticas",
afirma-nos Uday Karmarkar, director do Centro de Gestão
da Economia da Informação da Anderson
School of Management, da Universidade da Califórnia
em Los Angeles (UCLA).
«A globalização
dos serviços não está a seguir
os caminhos da deslocalização da indústria.
Segue um trilho específico, o das pegadas da
língua e da cultura, e não exclusivamente
dos custos baixos»
Este é, aliás, o ponto de diferenciação
com a vaga de deslocalização fabril iniciada
no século XX "A globalização
dos serviços não está a seguir
os caminhos da deslocalização da indústria.
Segue um trilho específico, o das pegadas da
língua e da cultura, e não exclusivamente
dos custos baixos", sublinha este professor, licenciado
em engenharia química em Bombaim e doutorado
em Ciências da Gestão na Sloan School of
Management, do MIT, em Boston.
O caso típico do entendimento do papel estratégico
da língua e da cultura para o desenvolvimento
de estratégias ganhadoras no campo do "outsourcing",
é o dos Estados Unidos. Melhor do que o Reino
Unido, a antiga potência global colonizadora,
os EUA entenderam o papel estratégico do inglês
no mundo, e os recursos por exemplo da Índia,
da Irlanda ou da Austrália para a prestação
remota de serviços às multinacionais norte-americanas.
As línguas das economias bimodais
Segundo o estudo que Uday está a desenvolver
em 15 países em vários continentes, e
que se transformará em livro, o castelhano é
outra das línguas globais que poderá propiciar
estratégias ganhadoras de "outsourcing"
e "insourcing" nos serviços. Casos
como o Banco Santander, na área financeira, e
a Telefónica, nas telecomunicações,
são exemplos europeus radicados no papel da língua,
da cultura e das relações históricas.
Para além da maioria dos países da América
Latina (com excepção do Brasil e dos territórios
e ilhas de influência francesa e inglesa), a realidade
geo-estratégica "hispânica" tem
hoje um peso significativo nos Estados Unidos. A tal
ponto que as próprias multinacionais norte-americanas
estão a iniciar a alavancagem sistemática
desta língua, através do Chile, por exemplo,
cita Uday.
«O problema do português
é essa falta de bimodalidade - o Brasil, apesar
de ser um país em desenvolvimento, tem massa
crítica de mercado sofisticado superior à
de Portugal, o país de origem da língua
e da cultura»
O modelo tem funcionado nestas duas línguas
globais - inglês e castelhano - porque há
massa crítica de clientes finais sofisticados
de um lado e "pools" de especialização
técnica a baixo custo do outro lado da geografia.
"As maiores oportunidades estarão em grupos
linguísticos cuja distribuição
da riqueza seja altamente bimodal", refere Uday
Karmarkar. Espanha tem massa crítica de mercado
superior ao México ou à Argentina, apesar
das diferenças populacionais. E estes dois países
da América Latina têm "pools"
cosmopolitas e de tradição cultural com
competências para os serviços.
"O problema do português é esta falta
de bimodalidade - o Brasil, apesar de ser um país
em desenvolvimento, tem massa crítica de mercado
sofisticado superior à de Portugal, o país
de origem da língua e da cultura", contrapõe.
Goa (na Índia) e África de língua
oficial portuguesa poderão ser bases interessantes
para "outsourcing" de serviços, diz
o nosso interlocutor - o que tanto é válido
para Portugal (o antigo colonizador) como para o Brasil
(que poderá seguir a estratégia dos EUA
em direcção à "Commonwealth"
britânica).
Outras línguas, com expressão inferior
no mundo ou mesmo regionalizadas, têm procurado
desenvolver estratégias do mesmo tipo, como o
fazem as multinacionais francesas em relação
às Ilhas Maurícias ou ao Magrebe, ou as
empresas alemãs em relação à
Polónia e à República Checa, ou
as suecas em relação à Estónia.
| 5 "dicas" de Uday |
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1. Use as pegadas da língua e da cultura lusas
no "outsourcing"
As empresas portuguesas podem desenvolver estratégias
de "outsourcing" de serviços seguindo
as pegadas da expansão internacional da língua
e da cultura portuguesas, sub-contratando nos "pools"
de conhecimento técnico existente ou emergente
nesses países.
2. Use a língua portuguesa para "insourcing"
O modelo das multinacionais que usam o português
(do Brasil) para prestar serviços na língua
portuguesa pode ser "copiado", através
de uma oferta de alta qualidade de radicação
de "pools" de serviços a partir de
Portugal.
3. Aumente a proficiência em línguas estrangeiras
O conhecimento aprofundado do inglês e do castelhano
podem favorecer o desenvolvimento de estratégias
de "insourcing" transfronteiriço (com
base no castelhano) ou remoto (inglês) em áreas
de competência técnica, atraindo subcontratação
remota ou investimento directo estrangeiro.
4. Defina países para uma relação
estratégica particular
Podendo não haver relações culturais
ou linguísticas directas, certos países
definiram "alavancas" ou "pontes"
para oferta de serviços remotos. Israel estabeleceu
uma relação particular com Chipre (hoje
na União Europeia) e a Índia está
a usar os arquipélagos e ilhas das Índias
Ocidentais, de língua inglesa, nas Caraíbas,
como plataforma mais próxima para oferta de serviços
para os Estados Unidos. Singapura e Hong Kong (e eventualmente
Macau) são tradicionais "pontes" para
e da China.
5. Evitar a "desconexão" com o cliente
final
Os serviços em "outsourcing" não
devem criar no cliente final uma sensação
de "desconexão" - o que acontece quando
o cliente sente que está a ser tratado por "terceiros"
que nada têm a ver com a sua cultura. Exemplo:
face a reacções negativas dos clientes,
a Dell fez regressar aos Estados Unidos serviços
remotos que tinham sido deslocalizados para a Índia.
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