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Cérebros em Fuga da América
Duzentos mil estão a deixar
anualmente os Estados Unidos para regressar aos seus
países de origem. A reversão do 'brain
drain' tradicional é hoje óbvia, com a
Índia, China e Irlanda, entre outros, a ganhar
terreno na guerra pelo talento
Jorge
Nascimento Rodrigues,
editor de janelanaweb.com, na review do livro Flight
Capital: The Alarming Exodus of America's Best and Brightest,
lançado em Outubro de 2005
Sítio do livro: www.flight-capital.com
A fuga de capital intelectual dos Estados Unidos acentuou-se
com a Administração Bush. Serão
200 mil os trabalhadores do conhecimento (para usar
a expressão cunhada pelo falecido Peter Drucker)
que estão a regressar anualmente aos seus países
de origem na Ásia, América Latina e Europa.
O 'país das oportunidades' começa a ser
vítima de um "boomerang" que leva de
volta a casa uma parte da nata das diásporas
da China, Índia, Taiwan, México e Irlanda.
Para agravar o cenário, muitos talentos nativos
estão a deixar os EUA para iniciarem carreiras
em outros países de língua inglesa ou
fluentes no inglês, como Canadá, Austrália,
Nova Zelândia, Irlanda, Reino Unido, Singapura
e Escandinavos. Estes países entenderam rapidamente
o ponto fraco americano e estão a explorar esta
janela de oportunidade.
O segundo "round"
O grito de alarme é dado pelo norte-americano
David Heenan, autor de Flight Capital, lançado
pela Davies-Black Publishing, uma obra que complementa
o diagnóstico feito em Abril de 2005 no livro
de Richard Florida, intitulado sugestivamente The Flight
of the Creative Class. Para Heenan, começou um
segundo "round" da guerra mundial pelo talento,
em que se conjugam o clima político anti-emigração
crescente e as pressões religiosas sobre certas
áreas da investigação de ponta
nos EUA com a afirmação das economias
emergentes da Ásia e do arco de economias europeias
baseadas no conhecimento. "Vivemos numa economia
de inovação e do conhecimento com um prémio
nos profissionais altamente qualificados que são
a arma secreta que alimenta a criatividade. Cada uma
das economias maduras necessita de recorrer a esta base
de talento, que é limitada, para poder subir
na curva de valor. Sem acesso contínuo ao talento,
os países maduros estagnarão", afirmou-nos
Heenan.
Esta fuga tem estado na penumbra do interesse dos media
face a "outras preocupações mediáticas
mais importantes, como a luta contra o terrorismo, o
'outsourcing' de postos de trabalho e a imigração
ilegal", acentua o autor. Contudo, o impacto desta
reversão do tradicional "brain drain"
será sentido a médio prazo: "É
inevitável que o domínio norte-americano
em algumas áreas seja ultrapassado por outras
nações. Esperamos que este alerta sirva
para acordar os responsáveis norte-americanos",
conclui David Heenan.
Não será por acaso que o mais recente
"case study" da revista norte-americana Harvard
Business Review (na edição de Novembro
de 2005) aborde precisamente o dilema de um biotecnólogo
no "Tigre Celta" (a Irlanda) entre ficar no
seu país ou regressar aos Estados Unidos onde
havia tirado o doutoramento. Sintomaticamente os comentadores
da Índia e da própria Irlanda recomendam
vivamente ao fictício John Dooley e a sua esposa
Fiona ficarem e não aceitarem mudar para a Califórnia.
PERFIL
David Heenan, um olhar do Hawai
David A Heenan radicou-se em Honolulu há 30
anos, "fugido" directamente de um alto lugar
executivo no Citicorp em Nova Iorque, aceitando a posição
de reitor do College of Business Administration da Universidade
do Hawai. Tendo trabalhado, também, numa empresa
americana do grupo Jardin Matheson, de Hong Kong, Heenan
é uma figura proeminente no mundo dos negócios
deste arquipélago do Pacífico.
Hoje com 65 anos, calcorreou oito países para
estudar o fenómeno do retorno das diásporas
qualificadas às suas origens e confessa que ficou
"impressionado com os casos da Irlanda e de Singapura,
e, em certa medida, também da Finlândia
e Suécia". O caso da Irlanda é "provavelmente
o mais emblemático dessa reversão do 'brain
drain'".
Um trajecto individual que observou tocou-o particularmente,
o de um professor de Harvard (Karl Stefansson) que regressou
à Islândia para avançar com um "cluster"
nas ciências da vida naquela "ilha de fogo
e gelo com menos de 300 mil habitantes". Outro
caso, alertou-o para a gravidade da polémica
religiosa em torno da investigação em
células estaminais - um sino-americano (Edison
Liu) aceitou uma oferta de Singapura para lançar
esta cidade-Estado na vanguarda desta área.
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