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Jeff Bezos,
o fundador da Amazon.com
«Continuamos
no 'vermelho', e depois?»
O Homem
do Ano 1999 eleito pela revista TIME explica porque
continua liderando uma empresa modelo da nova economia,
apesar de continuar no 'vermelho'. A entrevista com
Bezos aqui publicada sai a lume no dia (2 de Fevereiro
- hora de Seattle) em que a Amazon.com revela ter acumulado
390 milhões de dólares de prejuízos líquidos (pro-forma)
em 1999, cinco vezes mais do que no final de 1998. Mas,
se olhada clinicamente pelo lado do mercado, a Amazon.com
atingiu um total de 17 milhões de clientes (quase triplicou
em relação a 98) e mais de 1,6 biliões de dólares de
vendas (quase triplicou também em relação a 98)... e
o NASDAQ parece estar a reagir muito bem
Jorge Nascimento
Rodrigues em Nova Iorque com Jeff do outro lado da linha
depois de um mês de «perseguição» e uma corrida ao outro
lado do Atlântico
para acertar agulhas à distância com Seattle
Aparentemente contra todas as
regras de rentabilidade dos casos de sucesso da «velha»
economia, a Amazon.com continua a apresentar anualmente
perdas milionárias. Os resultados divulgados esta semana
relativos ao ano passado não fogem à regra - 390 milhões
de dólares de prejuízos líquidos, envolvendo perdas
de 605 milhões em termos estritamente operacionais -,
o que já levou a baptizar esta empresa criada em 1994
de pioneira dos «e-prejuízos». Mas Jeffrey Bezos, o
seu fundador, responde de Seattle (onde está sediada
a empresa) com uma das suas sonoras gargalhadas (um
dos seus ex-libris): «Continuamos no 'vermelho', e depois?».
Os prejuízos líquidos (pro-forma)
agora divulgados cresceram cinco vezes em relação ao
ano de 1998. Metade das vendas anuais estão literalmente
«comidas» pelas despesas operacionais em marketing e
vendas (um esforço enorme), em desenvolvimento do produto
e em amortizações.
Contudo, se observada pelo lado
do mercado - de conquista de quota e de fidelização,
que Bezos reclama ser o essencial - os resultados são
absolutamente incríveis: as vendas quase triplicaram
de um ano para o outro e o número de clientes também.
A Amazon.com contava no final de 1999 com 17 milhões
de clientes em todo o mundo e com mais de um milhão
de registados no seu «website».
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Cotações
Recentes
em fecho do dia
AMZN no Nasdaq
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13/12/99
- 113 dólares
26/01/00 - 64,81
31/01/00 - 64,56
01/02/00 - 67,44
02/02/00 - 69,44
03/02/00 - 84,19
04/02/00 - 78,56
07/02/00 - 75
08/02/00 - 83,13
09/02/00 - 81,25
10/02/00 - 76,19
11/02/00 - 76,19
14/02/00 - 74,44
15/02/00 - 73,81
16/02/00 - 70,69
18/02/00 - 64,75
25/02/00 - 69,13
06/03/00 - 63,94 |
Nesta primeira entrevista concedida
a um orgão de comunicação social português, Bezos reafirma
a continuação da sua estratégia de investimento fulgurante,
apesar do NASDAQ ter punido as acções da Amazon.com
Inc. no final do ano passado e no começo de 2000 - de
um «pico» de 113 dólares no princípio de Dezembro de
1999 para perto de 65 no final do mês de Janeiro de
2000 (aparentemente, batendo no fundo a 31 de Janeiro
de 1999), com uma subida nestes primeiros dias
de Fevereiro, sobretudo a partir do anúncio dia
2 dos resultados.
Garante, também, que continuam
agarrados firmemente à sua independência e que estrategicamente
não estão a pensar, por ora, repetir um movimento similar
ao feito pela American On Line ao «engolir» um tubarão
dos media.
A finalizar esta curta entrevista,
feita à distância, Bezos agradeceu «aos milhares de
portugueses que já compram na Amazon.com e às centenas
de parceiros que participam no Programa de Filiados»,
um esquema comissionista que a partir de «links» colocados
para o «site» da Amazon permite ganhar uma comissão
pela venda de cada mercadoria comprada.
Uma série de economistas de nomeada e de analistas das
consultoras começaram a «gritar» que a chamada nova
economia cairá na «real» um dia destes, com o regresso
às velhas leis do lucro explícito, do retorno sobre
o investimento, etc.. Quando é que a Amazon sairá do
«vermelho», apresentará um lucro liquido visível e «agradará»
a toda esta gente nervosa que já está farta de o ouvir
dizer que ainda não é a hora da fase da «colheita»?
Ou quererá continuar a ser a pioneira dos 'e-prejuízos'?
JEFF BEZOS - Essa é boa
(gargalhada sonora). Nós somos, de facto, a mais famosa
empresa não-lucrativa! Continuamos no 'vermelho', e
depois? Não é um acidente. É uma opção consciente. Ainda
não é a hora dos lucros. Atravessamos ainda um período
crítico de formação da Internet e seria miopia não investir
fortemente hoje em dia. Por isso é uma estratégia nossa
plenamente assumida. Pode crer que nenhuma empresa no
mundo digital se preocupa mais com lucros a longo prazo
- sublinhe por favor este ponto - do que a Amazon! Pois
se não o for sustentavelmente, a longo prazo, nada fará
pelos seus clientes. Mas estou de acordo com os economistas
- todas as empresas do 'e-business' terão de se adaptar
às leis do lucro explícito. Isso irá certamente acontecer.
Pela sua gargalhada deduzo que
a Amazon continuará com o frenesim de investimento,
independentemente dos lucros e das críticas? Tendo em
conta a quinzena de empresas que já tem no grupo, alguém
já vos chamou de sociedade de capital de risco mais
do que empresa comercial...
J.B. - A noção de investir
para o futuro não é nada nova, é bem velha. Este nosso
conceito básico não é nada fora do vulgar. Deixaremos
esse «frenesim» (nova gargalhada) quando o número de
oportunidades de negócio começar a declinar, pode estar
certo.
A Amazon.com vai continuar a
ser independente, ou teme que, um dia destes, um dos
tubarões do velho negócio vos compre?
J.B. - Gostamos imenso
de ser independentes (risos). E temos plena capacidade
hoje em dia para ser viáveis independentemente - escreva
também isso.
Ou poderão ser tentados a dar
um grade «tiro» como o fez a American On Line?
J.B. - Sobre o futuro
não vou comentar, pois qualquer coisa pode acontecer.
Mas - por ora - estamos focalizados no nosso crescimento
orgânico dentro da nossa estratégia de comércio electrónico
de satisfazer cada um dos clientes de per si.
O que é que contou mais na saga
da Amazon: a sua visão e estratégia de criar esse tipo
de negócio original na Web ou a sorte pura e simples?
J.B. - Ambas as coisas,
mais trabalho, muito trabalho duro de toda a equipa
da Amazon - que hoje já soma 5000 pessoas. Mas, para
uma «start up» como nós éramos há três ou quatro anos,
o ingrediente mais importante foi a sorte, pode crer.
Qual é o vosso maior orgulho?
J.B. - É o serviço ao
cliente que oferecemos. É, por isso, que o fazemos cá
dentro, e não é fácil, por isso, subcontratá-lo, como
está na moda fazer e falar. Essa é uma vantagem competitiva
de que vamos continuar a cuidar muito bem. Veja o que
aconteceu neste Natal, em que muitos retalhistas da
Web falharam, pois se preocuparam unicamente com o balcão
na Web, e descuraram o «pequeno» facto (risos) de que
as encomendas têm de ser entregues, que a logística
tem de funcionar. É isto que nos distingue.
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Analista
independente avalia Amazon.com
A opinião de Walid Mougayar
Comentário publicado no Expresso de 5/02/2000
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Ele comenta
mensalmente os altos e baixos da valorização de
mercado das empresas digitais. Mas recusa fazer
uma apreciação em torno de cifrões. A questão da
Amazon.com é para ele um problema de avaliação estratégica,
e para isso só uma opinião qualitativa servirá de
alguma coisa ao leitor.
«Apesar da muitos comentaristas terem criticado
a escolha de Jeff Bezos para Homem do Ano 1999 pela
revista Time, penso que a opção foi acertada ao
colocar a ênfase não só no homem - um visionário
-, mas também na tendência para o comércio retalhista
electrónico que está por detrás do caso da Amazon.com
e de outras empresas da vaga da Internet», comenta
Walid Mougayar, um analista canadiano independente,
autor de um dos «best-sellers» pioneiros no tema
(Opening Digital Markets, 1998, editado pela McGraw-Hill
e com uma «review» na Janela
na Web e actualmente comentador financeiro da revista
Business 2.0.
«Quando falamos de 'e-commerce', hoje tão na moda,
o que é que nos vem logo à memória? Exactamente
- a Amazon.com! Quem mais? Ninguém se lembra logo
de imediato de outra. Esta empresa foi a primeira
a focalizar-se na criação de uma verdadeira experiência
com o cliente na Net», prossegue Walid Mougayar,
fundador da Cybermanagement Inc. no Canadá.
Para ele, Bezos foi o primeiro a criar em tempo
recorde uma marca que não está ligada hoje a um
produto em particular, mas a uma «experiência» de
venda, a um certo tipo de «relacionamento» com o
cliente. No retalho «on line» é a marca que maior
reconhecimento obtém - 60%, muito distanciada de
casos como a eToys com 26% e a CDnow com 20%, que
vêm logo a seguir nos estudos feitos pela Opinion
Research Corporation International.
«Por isso, sublinha Mougayar, a Amazon pode vender
ali tudo o que quiser». Mas para isso tem de investir
fortemente na «compra» da fidelidade dos clientes.
«Se alguma das empresas da Web, que apostam neste
sentido da fidelização, se descuida e diminui os
gastos, pode tornar-se subitamente mais lucrativa,
mas isso será um suicídio a curto prazo», frisa
o nosso interlocutor.
O valor intrínseco da Amazon.com, refere-nos este
analista, deriva «de duas coisas extraordinárias
que Bezos fez: primeiro, ele está a criar a próxima
geração do negócio do retalho e, segundo, está a
investir fulgurantemente noutras empresas da Net
susceptíveis de serem coladas à sua visão». Há só
duas maneiras de encarar a valorização no mercado,
chama a atenção Walid Mougayar: «Ou se veste a pele
do investidor sazonal e, então, especula-se no curto
prazo nos altos e baixos baseados nos resultados
trimestrais e nas fobias em relação às taxas de
juro, ou se faz - aquilo que é mais inteligente
- uma aposta no longo prazo, e se compram e se conservam
certas acções independentemente dos altos e baixos».
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